Crato 262 anos: a luta para salvar a memória arquitetônica de uma das primeiras cidades do Cariri

  • 20/06/2026
(Foto: Reprodução)
A Sé Catedral Nossa Senhora da Penha, em frente à Praça da Sé, é exemplo de arquitetura colonial no Crato. Claudiana Mourato. Caminhar pelo centro do Crato, na região do Cariri cearense, é cruzar séculos de história gravados em fachadas, portas e grossas paredes de pedra. Antes de se tornar vila, no século 18, a região era habitada pelos índios cariris. A partir de 1714, o local começou a receber colonizadores vindos da Bahia, de Sergipe e Pernambuco, atraídos pela paisagem e fertilidade do solo, e ocupando as sesmarias (lotes de terras doados). Neste sábado (20), Crato completa 262 anos. O arquiteto e pesquisador Waldemar Arraes explica que o antigo aldeamento indígena foi capitaneado pelos frades do hospício de Nossa Senhora da Penha. Para se transformar em vila, precisou seguir regras. "A cidade nasceu a partir desse aldeamento. Depois se transformou em vila e cidade, no século 19. Existiam decretos da coroa portuguesa do século 18. Depois que foram criadas as vilas no nosso país, a maioria desses aldeamentos se transformou em vila com a expulsão dos jesuítas pelo marquês de Pombal. E a coroa tratou de transformar esses aldeamentos em vilas, e elas tinham que ser ordenadas, organizadas", conta Waldemar Arraes. "Tinha a maneira de organizar as casas, de distribuição das terras, tudo isso a coroa influenciava, na feitura dessas vilas. Tinha que ter uma igreja, uma casa de Câmara e Cadeia, um pelourinho. Tinha que estar toda alinhada para que parecesse portuguesa. Exista um ordenamento de certa forma. E os ouvidores, que tomavam de conta da administração das províncias, faziam visitas a essas vilas para ver se estavam de acordo com o que Portugal queria que parecessem", detalha. Dessa primeira arquitetura não sobrou muito. As edificações foram se transformando ou foram demolidas ao longo dos anos. Mas o que restou ainda é admirado pelos visitantes, como a antiga Casa de Câmara e Cadeia, o principal edifício do período colonial da cidade. Foi construído em 1877, no encontro da Praça da Sé com a Rua Senador Pompeu no Centro da cidade. Com o tempo, foi ressignificado. Confira a evolução do prédio ao longo do tempo: Initial plugin text A Casa de Câmara e Cadeia abriga o Museu de Arte Vicente Leite, no pavimento superior, e o Museu Histórico do Crato - J. de Figueiredo Filho, no térreo. Possui estilo neoclássico. Antes de ser convertido em espaço museográfico, abrigou Prefeitura, Fórum, Junta Militar e Delegacia de Polícia. O prédio é tombado em nível estadual. De capela à Catedral Outro exemplo de arquitetura colonial é a Sé Catedral Nossa Senhora da Penha, em frente à Praça da Sé, bem próximo à antiga Casa de Câmara e Cadeia. Antes de se tornar um templo imponente, foi uma pequena capela de tapera. "Foi nesse ambiente que teve início a catequese indígena. Um padre italiano organizava o espaço. Na época, o local tinha uma quantidade de água muito grande e tinha também várias tribos que a gente chama normalmente como tribos cariris. Então esse processo se inicia não com esse templo grande, bonito, que ostenta muito luxo, mas uma pequena capela e, no entorno, uma grande esplanada, a praça, onde o povo poderia ficar. Posteriormente, no entorno, a presença de diversas casas que passam a ser ocupadas por membros da elite do período", comenta o arquiteto e pesquisador Waldemar Arraes. LEIA TAMBÉM: História preservada: Icó tem mais de 400 imóveis dos séculos 18 e 19 tombados 300 anos de Fortaleza: conheça 10 prédios do Centro que contam a história da capital Confira a evolução da igreja ao longo do tempo: Initial plugin text O historiador Iaré Lucas Andrade contextualiza que "a arquitetura colonial é uma representação da maneira de pensar e da formação de uma identidade de um determinado período. O Brasil se forma a partir de um olhar muito para fora. As elites locais se estruturam olhando sempre para o modelo europeu. Então, as regiões que foram colonizadas por portugueses e espanhóis têm muito desse reflexo de uma formação arquitetônica com base naquela forma de pensar do século 16 e do século 18". "Em 1817, você já está se encaminhando para o processo independentista. Foram vários processos, mas aquele de 1822 foi o mais marcante. A forma como o arquiteto, as pessoas pensaram a igreja é uma forma escalonada, ou seja, você não tem esse modelo definitivo feito de uma vez. Uma torre é feita em uma época, outra torre é terminada em outra época." No início do século 19, foi dada uma formatação ao prédio. "São colunatas muito sóbrias, portas muito bem definidas em seus arcos. É bastante diferente, por exemplo, daquelas igrejas mais barrocas de Minas Gerais, de Salvador. Não há aquela conotação de ouro, de ostentação, mas há uma formulação muito precisa daquela ideia. A elite da região do Cariri, a elite cratense queria se espelhar na modernidade europeia. Isso faz com que a igreja tenha essa formatação aqui, arcos inteiros, colunas muito sóbrias, imponência", explica. "E a formação da identidade regional do Cariri tem, na cidade do Crato, uma espécie daquilo que os pesquisadores chamam de cidade-mãe. Porque é a partir do Crato que as outras cidades vão se formando, ganhando sua independência, se tornando autônomas, como Juazeiro, Milagres e Barbalha. Você percebe assim, em torno da própria catedral, uma série de elementos do funcionamento da sociedade local aqui do Crato e do Cariri também", complementa Iaré Lucas Andrade. A Sé Catedral do Crato é avaliada pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) em um processo de tombamento. Estação Ferroviária A Estação Ferroviária do Crato foi inaugurada em 8 de novembro de 1926. Initial plugin text Com o crescimento da cidade, outras transformações. A Estação Ferroviária do Crato foi inaugurada em 8 de novembro de 1926. Esteticamente, por ser uma obra da primeira metade do século 20, o prédio reflete um período de transição, um ecletismo arquitetônico. O local foi cenário de eventos significativos da história política e social da região. O edifício foi construído para servir de abrigo temporário aos passageiros. As ferrovias eram determinantes no crescimento e desenvolvimento econômico das cidades. A antiga Estação Ferroviária do Crato possuía intensa movimentação. Mas com a decadência das ferrovias, a Estação fechou em 1989, mais de 60 anos depois da inauguração, e transformou-se em espaço de cultura do município. É tombado pela Secretaria de Cultura do Estado. Conhecido como Complexo da RFFSA, a Estação Ferroviária possui três estruturas: Casa do Agente, Terminal de Passageiros e Casa de Bagagem. Aguarda também uma avaliação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para tombamento. "Os bens ferroviários são os bens que a gente chama de valorados, um processo de tombamento diferenciado. No caso da estação do Crato, o pedido que está nas nossas mãos é um pedido para tombamento, que é um pedido que demora, que tem uma análise", afirma a superintendente do Iphan Ceará, Cristiane Buco. "A gente já fez um parecer positivo, mas para vocês terem uma ideia, nós temos processos de tombamento em 10, 20, 30, anos, são processos bem demorados. Mas também já está em Brasília, e eu tenho a impressão que em breve a gente vai ter esse bem tombado pelo Iphan. É um processo que já está bem adiantado. Tem um parecer favorável na nossa superintendência, está em Brasília para fazer ali mais alguns ajustes", detalha. Cassino Sul Americano O aposentado Raimundo Modesto de Brito na frente do Cassino Sul Americano, no Crato (CE). Claudiana Mourato/TVM Cariri No Centro, também encontramos outro prédio histórico que guarda muitas histórias, o Cassino Sul Americano. Fica na praça Siqueira Campos, nesse espaço funcionou o cinema da cidade. Hoje, abriga um restaurante. A fachada é eclética com molduras em arco abatido e janelas com venezianas. A parte interna foi inteiramente modificada. Somente a fachada permanece com detalhes da época em que foi inaugurado. O prédio aguarda um processo de tombamento pela Secretaria de Cultura do Estado. Não é incomum encontrar na praça quem recorda momentos vividos nesse espaço. O aposentado Raimundo Modesto de Brito aproveita as horas vagas na praça e relembra a época em que frequentava o cinema: "Assistia filmes com a minha primeira esposa, era outro tempo, tempo bom, de gente feliz!" Ainda é possível também ver casarões antigos; alguns ainda são moradas. Outros abandonados e demolidos. O imóvel onde a comerciante e revolucionária Bárbara de Alencar residiu na antiga Rua Grande, cujas paredes presenciaram as articulações para a Revolução de 1817, é um prédio remanescente do primeiro ciclo de ocupação urbana da cidade. Embora com valor histórico inestimável, o prédio não possui mais as características da época. Hoje, sedia a Secretaria Estadual da Fazenda. Uma escultura em homenagem à heroína foi assentada em frente à antiga residência para recordar. Initial plugin text A falta de conscientização é um dos motivos para que esse rico acervo seja esquecido, o que gera um alerta para historiadores, gestores e arquitetos. De acordo com o secretário de Cultura do Crato, Wilton Dedê, a administração municipal está iniciando a catalogação dessas estruturas para o lançamento de um almanaque didático para a população. "Nós estamos iniciando uma catalogação desses prédios para lançar um almanaque, um livro com todos esses prédios mais importantes para que a população possa conhecer esse acervo. Eu acho que falta ainda um investimento em educação patrimonial para que as pessoas possam saber e ver a importância da preservação", destaca o secretário. "Alguns prédios têm sido derrubados, outros nós perdemos. Tem gente que só muda a pintura, com esses a gente consegue conversar, passar pra eles a importância de se preservar. O melhor que a gente tem no Crato é que cada um desses espaços guarda uma história e quando um prédio desse desaba, a história também vai, fica mais difícil das pessoas lembrarem, comentarem", lamenta Dedê. Educação patrimonial no ambiente virtual Crato 262 anos: a luta para salvar a memória arquitetônica da cidade Para reverter esse cenário de esquecimento, Waldemar Arraes e um grupo de arquitetos desenvolvem um trabalho científico inovador de educação patrimonial. Através de fotografias antigas, outros mapeamentos e dados históricos, o grupo realiza a reconstrução virtual tridimensional do Centro Histórico do Crato, recortando o período do final do século 19 até os anos 1920. O projeto de maquete digital realista ganhará, em breve, uma sala exclusiva em um dos museus da cidade, permitindo que os cidadãos façam passeios virtuais no Crato do passado. Trata-se de uma tentativa pedagógica de mostrar o que foi perdido, conscientizar os moradores atuais e provar que o patrimônio histórico não é um estorvo antigo, mas um ativo econômico capaz de gerar turismo, cultura e riqueza para a "Princesa do Cariri". "Com as tecnologias computacionais e tridimensionais a gente consegue reconstruir edifícios no computador e tornar essas imagens de reconstrução bem realistas, fazer passeios virtuais através desses levantamentos. É um trabalho científico através de livros, bibliografias da histórias local, fotos de satélites, tudo isso a gente utiliza para fazer essa reconstrução virtual. Uma forma de conscientizar as pessoas para a preservação do patrimônio também, para que elas vejam como era e como está hoje, para elas compararem e ver que muita coisa poderia estar de pé e que contaria melhor a história da cidade poderia existir ainda. É uma espécie de educação patrimonial", reforça Waldemar Arraes. Galerias Relacionadas Para o arquiteto André Sampaio, que também faz parte do projeto, esse trabalho demonstra o quanto a arquitetura sofre influências culturais, sociais e políticas ao longo do tempo: "Esse trabalho serve como um lembrete de que a gente ainda possui material de valor em relação ao patrimônio, ainda tem uma arquitetura que vale a pena estudar, uma arquitetura que vale a pena preservar, para que as próximas gerações tenham a possibilidade de conhecer aquilo que a gente vem trabalhando para resgatar ou, de certa forma, manter, preservar". "E é importante também proteger o que ainda resta dessa arquitetura, de todas essas influências que o Crato e o Juazeiro, enfim, as demais cidades da região do Cariri, ainda têm como ponto positivo, como recursos de pesquisa, recursos materiais de estudos bem importantes para a nossa região. E também para que os cidadãos aqui do Crato, principalmente, conheçam como era o século 18, o século 19. Uma arquitetura muito bonita." "Que isso possa ser um pontapé inicial para todo o trabalho que possa ser realizado daqui para frente, é material de pesquisa que vale muito a pena ser continuado. Todas as edificações têm a sua identidade, e nessa identidade tem um conjunto de histórias, tem um conjunto de narrativas que as trouxeram até essa forma final, esse resultado que a gente vê como centro histórico, tanto do Crato como de várias outras regiões", conclui André. "Além do Centro Histórico, a gente está desenvolvendo a parte de peças gráficas de toda a evolução da Casa de Câmara e Cadeia. Então, desde a primeira datação até como ela se encontra nos dias de hoje, tem tanto a questão de plantas e de forma que vai facilitar o entendimento para as pessoas", reforça o arquiteto Maykon Dantas da Silva Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/cariri/noticia/2026/06/20/crato-262-anos-a-luta-para-salvar-a-memoria-arquitetonica-de-uma-das-primeiras-cidades-do-cariri.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Anunciantes