Visitas guiadas em cemitério de Fortaleza revelam fatos históricos, crimes e casos sobrenaturais

  • 25/07/2026
(Foto: Reprodução)
Grupos fazem visitas e aulas no cemitério São João Batista, em Fortaleza Desembargador Moreira, Raul Barbosa, Senador Pompeu, Antônio Sales e Rodolfo Teófilo. Os principais nomes de avenidas, bairros e cidades do Ceará podem ser encontrados nos túmulos do cemitério São João Batista, no Centro de Fortaleza. Com 160 anos de atividade, o espaço é considerado um grande museu a céu aberto no coração da cidade. Aprender sobre história, cultura e relatos sobrenaturais dentro de um cemitério é uma experiência proporcionada por diversos grupos e projetos em Fortaleza, organizando passeios diurnos e noturnos. A atividade se assemelha às iniciativas de necroturismo em cidades como São Paulo, Buenos Aires e Paris. ✅ Clique e siga o canal do g1 Ceará no WhatsApp Com aulas ou visitas guiadas pagas, o público é levado a refletir sobre aspectos diversos enquanto descobre sobre personalidades e figuras de destaque na sociedade cearense (confira no vídeo acima). Em comum, os grupos que conduziram a equipe do g1 entre jazigos e sepulturas demonstram o desejo de valorizar a diversidade de histórias no território do São João Batista, ressaltando o contraste entre as tradições e as culturas marginalizadas. Grupos em Fortaleza promovem visitas ao cemitério São João Batista, com 160 anos de atividade Fabiane de Paula/SVM O cemitério, inaugurado em 1866, é o mais antigo de Fortaleza ainda em funcionamento. E preserva, em suas ruas e planos, evidências de conflitos sociais e fatos marcantes para a história do Ceará. ➡️ Atualmente, os grupos enfrentam algumas restrições para agendar novas excursões devido ao período de obras estruturais no cemitério. Novos agendamentos são divulgados nas redes sociais de cada projeto. Pompa após a morte Os túmulos, mausoléus e jazigos mais imponentes do cemitério São João Batista são do século 19 e do início do século 20, como contextualiza o historiador e filósofo Thiago Roque. Juntamente com o historiador Sandoval Matoso, ele está à frente do projeto Fortaleza Necrópole, que conduz aulas no cemitério São João Batista desde 2024. A partir de outubro de 2025, eles passaram também a fazer aulas noturnas no cemitério, contando com atores que representam alguns dos personagens históricos. Thiago explica que o primeiro plano, situado logo na entrada, concentra os restos mortais de famílias mais ricas e tradicionais. Por isso, a primeira vista dos visitantes é de túmulos suntuosos adornados com anjos e uma diversidade de símbolos sacros. Projeto Fortaleza Necrópole realiza aulas diurnas e noturnas no cemitério São João Batista, em Fortaleza Arquivo Pessoal “Muitos dos mausoléus e túmulos são imponentes porque a forma como você era enterrado, sepultado, dizia muito do que você era em vida. Há relatos de que algumas famílias deixavam em seus testamentos para que fosse investida toda a sua fortuna nos seus túmulos”, detalha o historiador. Dividido em três planos, o cemitério tem uma extensão de nove hectares. Enquanto as elites eram enterradas na porção da frente, as demais camadas da sociedade e os não-católicos, como os judeus e protestantes, foram enterrados mais ao fundo. A localização do cemitério também conta história. Ele foi construído fora da cidade, em uma época em que o perímetro urbano se restringia a uma área do atual Centro. Em uma experiência sensorial, os participantes das aulas são convidados a sentir a direção dos ventos que correm pelas ruas da necrópole. “Esse vento está vindo do leste para o oeste. Isso explica por que o cemitério foi construído desse lado. Dentro das políticas de higienização do século 19, acreditava-se que os odores dos mortos contaminavam a cidade”, explica Thiago. 🔍 Conheça alguns túmulos destacados por Thiago Roque, do projeto Fortaleza Necrópole: ➡️ Caio Prado e Senador Pompeu Túmulo de Caio Prado, político que morreu aos 35 anos, contém coluna cortada para simbolizar morte prematura Ismael Soares/SVM Dois políticos que foram oponentes em vida são vizinhos de túmulo no São João Batista. Um deles é Caio Prado, um dos presidentes da Província do Ceará pouco antes do término do Segundo Reinado. Político e advogado nascido em São Paulo, Caio Prado morreu de febre amarela aos 35 anos. Além de contar com uma base de pedras importadas do Egito, o túmulo dele tem uma coluna cortada para simbolizar que a vida dele foi encerrada de forma prematura. Ao lado dele, jaz Tomás Pompeu, que nasceu em Santa Quitéria, exerceu as funções de jornalista, professor e sacerdote e, pela trajetória política, ficou eternizado como o Senador Pompeu. A sepultura dele guarda a assinatura do ceramista responsável pela arte tumular. ➡️ Barão de Aratanha e Barão de Studart Mausoléu da família Albano, onde está sepultado o Barão de Aratanha, em Fortaleza Fabiane de Paula/SVM Vários cearenses que receberam o título de barão estão no São João Batista, como o Barão do Crato e o Barão de Camocim. A nomenclatura era o mais baixo título de nobreza concedido pelos imperadores no século 19. José Francisco da Silva Albano, o Barão de Aratanha, está em um grande mausoléu com outros familiares em local bem próximo à capela do cemitério — posição de prestígio por estar ‘mais perto de Deus’. Devido à ação do tempo, as grandes imagens de Maria e Maria Madalena ao lado de Jesus parecem verter lágrimas. Filho de um cônsul inglês, Guilherme Chambly Studart foi nomeado como Barão de Studart. Médico, geógrafo, historiador e antropólogo, ele é o único dos barões cearenses com título concedido diretamente pela Igreja, outorgado pelo papa Leão XIII. ➡️ Ana Triste Projeto Fortaleza Necrópole destaca túmulo de Ana Triste, no cemitério São João Batista Em uma rua mais escondida do cemitério, está o túmulo de Ana Triste. Ela foi esposa de Tristão Gonçalves, tendo assumido o sobrenome “Triste” após a morte do marido. Tristão Gonçalves foi enterrado às margens do rio Jaguaribe, assassinado após lutar na Confederação do Equador (confira no vídeo acima). Ana é considerada uma das mulheres esquecidas na história do Ceará, visto que ela também se engajou nas articulações políticas do movimento, que buscava formar uma república independente com as províncias do Norte. ➡️ Ao Cristão Desconhecido Ossuário Ao Cristão Desconhecido faz memória a milhares de pessoas não identificadas no sepultamento, em Fortaleza Renan Silva/Canal La Tumba - Túmulo dos Famosos A imagem de São Miguel representa o anjo guerreiro como guardião do mausoléu dedicado a diversos defuntos sem origem conhecida. O monumento reúne restos mortais de pessoas marginalizadas que não tiveram direito ou condições de ter um sepultamento com identificação ou lugar de prestígio. O ossuário também é espaço de memória pelos milhares de retirantes das secas, pessoas acometidas em grandes ondas de doenças infecciosas ou até mesmo pessoas que sumiram sem que os familiares saibam se elas morreram ou não. Fatos históricos e mundo sobrenatural A excursão Mistérios de Fortaleza é promovida pela dupla Kris Oliveira e Renan Silva no cemitério São João Batista Thaís Brito/g1 Uma amizade iniciada por mensagens na rede social, em 2023, rendeu uma parceria que atualmente leva o público para o Centro de Fortaleza falando de história e relatos místicos. Kris Oliveira, dona do canal Conhecendo o Sobrenatural, se uniu ao estudante de história Renan Silva, do canal La Tumba - Túmulos dos Famosos. Juntos, eles passaram a conduzir visitas ao cemitério São João Batista desde 2025, com grupos de cerca de 70 pessoas em passeios diurnos e noturnos. O tour Mistérios de Fortaleza explora aspectos históricos e curiosidades da necrópole, além de atrair um público interessado em conhecer lendas urbanas e sobrenaturais. “A gente quer tirar a ideia de que o cemitério é um lugar triste, apagado. E esse cemitério é um lugar em que você vê a beleza da arte tumular, dos túmulos das famílias. Hoje, infelizmente, isso está se perdendo com os ‘cemitérios parques’, que têm estruturas muito iguais”, ressalta Renan. Apaixonado pelo cemitério, o estudante tem uma missão pessoal em andamento: catalogar quem está enterrado em todos os planos e ruas, com uma lista que posteriormente quer entregar à administração do São João Batista. É pesquisando cada nome que ele descobre histórias sobre pessoas comuns e relembra também crimes que comoveram a cidade. Relatos históricos e sobrenaturais fazem parte da excursão Mistérios de Fortaleza Conhecendo o Sobrenatural/Divulgação Para Kris, o componente espiritual das visitas acaba se tornando numa troca de informações com o público, que também acrescenta histórias próprias. Ela conta com uma equipe que realiza investigações paranormais. E garante que o cemitério é bem menos ‘carregado’ que os hospitais, por onde vários espíritos transitam logo após a morte. “Fortaleza tem as lendas que muita gente já conhece, mas eu tenho um quadro no meu canal apenas com relatos sobrenaturais. Então o que nos diferencia é que muitas pessoas nos mandam relatos novos, e os que são daqui do São João Batista eu conto no tour”, partilha Kris. 🔍 Conheça alguns túmulos destacados por Renan Silva e Kris Oliveira, da excursão Mistérios de Fortaleza: ➡️ Menina Lúcia Excursão Mistérios de Fortaleza apresenta túmulo da santa popular Menina Lúcia Brinquedos, ursos de pelúcia e flores são sempre vistos no túmulo de Lúcia, que morreu em 1917. A menina tinha dois anos quando faleceu, de causa desconhecida nos dias de hoje. No entanto, visitantes do São João Batista passaram a pedir a intercessão da menina em suas orações (confira no vídeo acima). A sepultura tem várias placas de agradecimento feitas por pessoas que afirmam ter alcançado milagres, tornando o túmulo da Menina Lúcia um ponto de peregrinação no cemitério. Uma curiosidade é que a santinha popular era irmã de Luiza Távora, que foi primeira-dama do Ceará e que inicialmente foi sepultada no mesmo túmulo com outros familiares. ➡️ João Nogueira Jucá Túmulo de João Nogueira Jucá faz memória a adolescente que salvou diversas vidas em incêndio Ismael Soares/SVM Outro túmulo bastante visitado é o de João Nogueira Jucá, que faleceu em agosto de 1959 após um ato heróico. Ele é lembrado por ter conseguido salvar a vida de vários pacientes, incluindo crianças, durante um incêndio de grandes proporções na Casa de Saúde Dr. César Cals, no Centro. O jovem tinha 17 anos e estava passando perto da unidade quando resolveu ajudar. Ele teve queimaduras graves após a explosão de um tubo de oxigênio e morreu uma semana depois, coincidindo com o Dia do Estudante. Os cearenses também fazem memória a João Nogueira Jucá nesta data. O Corpo de Bombeiros instituiu uma medalha com o nome do estudante, considerado um mártir e herói. ➡️ Arina Castello Branco Sepultura de Arina Castello Branco tem últimas palavras de jovem que morreu após o parto, aos 17 anos Ismael Soares/SVM A sepultura de outra jovem chama bastante atenção no cemitério por conta da arte tumular. Isso porque o obelisco de mármore no jazigo de Arina Castello Branco conta a sua história e seus últimos momentos de vida. Ela morreu após complicações no parto quando tinha 17 anos, em 1908, e foi considerada uma santa pela família. No túmulo, estão inscritas as frases “Querido, não chore”, “Mamãe, v. cria minha filhinha?” e “P. Lumesi, a que horas eu morro?”. Com isso, a família perpetuou as supostas últimas palavras da menina, ressaltando a imagem de mãe e esposa em seus momentos de sofrimento. ➡️ Dragão do Mar Excursão Mistérios de Fortaleza apresenta túmulo do Dragão do Mar, em Fortaleza O Dragão do Mar está enterrado no São João Batista desde 1914. No entanto, foi apenas em 2020 que o historiador Licínio Nunes de Miranda conseguiu localizar o túmulo dele. Uma das dificuldades era porque a lápide traz apenas o nome completo dele, Francisco José do Nascimento, sem as referências ao “Dragão do Mar” ou ao “Chico da Matilde” (confira no vídeo acima). O título de major ajudou a confirmar a localização, visto que ele se tornou, após a abolição dos escravizados, Major Ajudante de Ordens do Secretário Geral do Comando Superior da Guarda Nacional do Estado do Ceará. O desconhecimento sobre o local de sepultamento dele por mais de um século levanta reflexões sobre o apagamento da história negra no Ceará. Dragão do Mar foi um dos principais membros do Movimento Abolicionista Cearense. Percursos com linguagem jovem Trilhas urbanas do Coletivo Vai Veno incluem visita ao cemitério São João Batista Fabiane de Paula/SVM Atividades de educação patrimonial e mediação histórica e cultural pela cidade são promovidas desde 2023 pelo Coletivo Vai Veno, que começou a partir da conversa entre dois estudantes de história que estavam perto de concluir a graduação. Com uma linguagem jovem e acessível a todos, a ideia é levar o conhecimento acadêmico para o público geral por meio de várias trilhas urbanas. “O patrimônio histórico não existe sem as pessoas”, explica o historiador Mailton Granja. No cemitério São João Batista, o grupo viu uma oportunidade de trazer perspectivas da história e da geografia falando sobre vida, morte e dinâmicas da cidade. A trilha fala da criação dos primeiros cemitérios da cidade, medida que contou com a oposição da Igreja da época. Isso porque, até o século 19, a tradição era a de enterrar os corpos de famílias tradicionais dentro dos templos, como na Igreja do Rosário. Para o Coletivo Vai Veno, visita ao cemitério traz reflexões sobre geografia, história e dinâmicas da cidade Fabiane de Paula/SVM Como contextualizaram Diego Costa e Val Hermes, que conduziram a excursão neste mês de julho, um dos eventos importantes nessa discussão foi o desmaio da esposa do presidente da província, Casimiro José de Moraes Sarmento, enquanto assistia missa na Igreja do Rosário. O fato foi atribuído aos “miasmas” que poderiam estar exalando dos mortos, palavra muito usada na lógica higienista do período. A partir deste episódio, a cidade passou a construir cemitérios em espaços isolados da vida urbana. 🔍 Conheça alguns destaques da Trilha Terra e Vida, promovida pelo Coletivo Vai Veno: ➡️ O antigo cemitério São Casimiro Primeiro cemitério de Fortaleza ficava onde hoje é o Complexo Cultural Estação das Artes Fabiane de Paula/SVM Antes de uma caminhada até o São João Batista, os participantes fazem uma parada no local do primeiro cemitério da cidade. O São Casimiro, inaugurado em 1849, ficava em uma área de dunas móveis conhecida como Morro do Croatá. Atualmente, o local abriga o Complexo Cultural Estação das Artes. O local virou alvo de críticas após uma epidemia de cólera. Isso porque os moradores da cidade afirmavam que recebiam os ventos que vinham dos cemitério, atribuindo a isso a disseminação de doenças. O cemitério também passou a ser invadido pelas areias da duna. ➡️ Boticário Ferreira Coletivo Vai Veno apresenta túmulo do Boticário Ferreira no cemitério São João Batista Homenageado na Praça do Ferreira, o boticário Antônio Rodrigues Ferreira foi uma figura de destaque na política cearense do século 19 (confira no vídeo acima). Tornou-se uma figura popular na cidade após abrir uma botica, receitando e preparando remédios para ricos e pobres. Ele presidiu a Câmara dos Vereadores de Fortaleza por 18 anos consecutivos, tendo sido considerado um gestor direto em decisões sobre a cidade, como a contratação de Adolfo Herbster como arquiteto municipal — que desenhou as ruas de Fortaleza com base na configuração de Paris. ➡️ Túmulos de Zé Pilintra Túmulos no cemitério São João Batista, em Fortaleza, fazem referência à entidade Zé Pilintra Fabiane de Paula/SVM O vermelho se destaca em meio aos tons de branco, preto e cinza do cemitério. Em pelo menos dois túmulos, a entidade Zé Pilintra tem espaços de representação para o sincretismo e as religiões de matriz africana. A entidade é cultuada como fonte de força espiritual e sabedoria, sendo vista como um protetor dos pobres. Um dos túmulos está no limite final do cemitério, próximo ao muro que separa o espaço da avenida Filomeno Gomes, recebendo homenagens em forma de cachaças, flores e terços. O local é espaço também para reflexões sobre a diversidade de credos e manifestações religiosas. ➡️ Frei Tito Frei Tito, inicialmente enterrado na França, está sepultado em Fortaleza desde 1983. Fabiane de Paula/SVM O local onde descansam os restos mortais de Frei Tito convida a um momento de memória pelas violências sofridas pelos opositores à ditadura militar no Brasil. Com infância e adolescência em Fortaleza, Tito morava em Recife quando o regime militar foi iniciado. Em sua vida religiosa, tornou-se uma voz importante na luta pela democracia e pelos direitos humanos, fortalecendo também a atuação no movimento estudantil. Vigiado e, posteriormente, detido pelo regime, Tito foi brutalmente torturado e escreveu uma carta-denúncia para várias instituições de defesa dos direitos humanos, sendo este o primeiro documento com uma denúncia pública sobre a situação dos presos políticos no Brasil. Quando esteve exilado, ele continuou tendo alucinações com seus algozes e tirou a própria vida. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/07/25/visitas-guiadas-em-cemiterio-de-fortaleza-revelam-fatos-historicos-crimes-e-casos-sobrenaturais.ghtml


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